carta de kekei mesquita, cedida ao museu dos corações partidos
São Paulo, Janeiro de 2010
Ao longo de muitos anos eles se registraram em polaroids, no 12º dia de cada mês. Onde quer que estivessem faziam uma imagem a dois, ou a foto de apenas um deles que enquadrasse um pedaço de realidade para o outro.
Lá pelas tantas, eles se embolaram no meio da velocidade da vida, das novidades e das distâncias que os invadiam dia-a-dia, nos dias 12 de cada mês e na maioria dos outros dias de cada um daqueles anos intensos: a criança deles, as contas deles, a demanda dela, o trabalho dele, os estudos dela, a falta de tempo dele, o namorado dela, o caso dele.
Eles começaram a caminhar por oposições cada vez mais excessivas aos parceiros, eles habitavam um esgotamento da cumplicidade, eles não se alegravam juntos, fazia tempo.
Tentaram experiências sistemáticas de afastamento temporário. Contudo, os encontros que ocorriam no traçado das distâncias eram um desastre atrás do outro.
Uma noite, quando ela voltava de uma breve distância e ele anunciava mais um pequeno distanciamento, ela lhe disse: “se você for hoje, nao volte mais, nunca mais”. E assim se deu: ele saiu com um colchão enrolado debaixo do braço. Talvez para sempre.
Naquele momento de perplexidade anestesiante e nenhuma força afetiva que revertesse a decisão ou que produzisse um movimento amoroso, aquilo parecia óbvio e nenhum dos dois, nem ninguém em torno, poderia sequer imaginar a dor que atravessaria a demarcação definitiva da distância, que, afinal, parecia óbvia!
Contudo, os dois corações ficaram avassaladoramente feridos. E, ainda assim, a velocidade da vida perdurava e as novidades e distâncias continuaram sendo despachadas no meio do caos: a criança deles, as contas deles, a demanda dela, o trabalho dele, os estudos dela, a falta de tempo dele, o namorado dela, o caso dele.
Mas tudo se esvaziava. Tudo logo se tornaria noite fria, colchão frio, precariedade fria, solidão fria, corpo frio, café da manhã frio. E, ao lado de tanta dor, tudo também se tornou uma espécie de guerra contínua e matança mútua, sem dó nem perdão. Tudo morria um pouco, todo dia. E ainda teve o pai dela que resolveu morrer de verdade… Tudo era luto e tudo era dor e tudo era frio, exceto o calor da insanidade que dois corações partidos são capazes de fazer nascer.
Uns meses depois da demarcação geográfica da distância, ela decidiu lhe dar como presente de natal um salto de pára-quedas. Pensou numa metáfora amorosa (ela era boa nisso) que mencionasse o retorno dele a uma vida arriscada - adjetivo que muito o fascinava e que ele tanto afirmou ser incompatível com a vida a dois que ela lhe demandava, segundo ele, em excesso.
Ele nunca aceitou o presente, pré-pago, agendado e reagendado: afirmou ter medo de morrer, “ainda mais agora, com a paternidade”...
Dias depois ele retribuiu: um vôo de balão. Os dois juntos, “um pouco de leveza na calmaria dos ventos”. Uma imagem deslumbrante (ele era bom nisso).
No entanto, naquele momento aquilo era, ao mesmo tempo, tão belo e tão distante das possibilidades de ambos os corações - ainda partidos e insanos - que ela brigou, brigou, brigou e gritou com ele. E o deixou só na mesa do bar.
Isso porque aquele presente evocou no corpo dela a beleza do possível que ele frequentemente apontava e a crueldade do impossível que ele insistia em significar, fazia anos. C’est possible, pas possible; C’est possible, pas possible; C’est possible, pas possible: antigo jogo dos dois corações, sem vencedores, só perdas e danos para todo lado, fazia tempo.
Eles nunca voaram juntos. Eles seguiram, cada um com seu próprio pára-quedas, insuficiente proteção contra sobressaltos da realidade.
Dois anos depois, por razões de ordem burocrática, eles precisaram se separar novamente, agora no mundo das leis, contexto capaz de endurecer ainda mais a partida de corações.
Na ocasião, ele chegou com uma hora e meia de atraso - o mesmo tempo de demora do primeiro encontro combinado por eles, 14 anos atrás.
Ela o recebeu com palavras de papel comestível escritas em caixa alta: AMOR e ALEGRIA.
Ele lhe ofereceu uma cesta de bombons de cupuaçu, úmidos e cremosos.
Ela usava no pescoço como colar a palavra SIM.
Em frente ao juiz, na hora de dizer “estamos certos de que queremos isso mesmo”, apertavam as mãos escondidas debaixo da mesa, assim como fizeram antes de se beijar pela primeira vez.
Enquando assinavam os papéis trazidos pela escrivã, entrelaçavam pernas e pés, assim como frequentemente fizeram na grande maioria das noites em que dormiram juntos.
O divórcio terminou na praça do Fórum Central com lágrimas nos olhos dela e algumas palavras gritadas por ambos, enquanto se apertavam num forte abraço.
Atônitos, advogado e testemunhas afirmam ter ouvido coisas assim como “não queria”, “poderia”, “seria”, “faltou”, “assim”, “diferente”, “determinação”, “teimosia”, e inúmeros “por ques”. Entretanto, relatam não ter compreendido nenhuma das frases por completo, pois as mesmas eram frequentemente interrompidas por beijos atrapalhados.
Consta que ambos continuam sem saber o dia de amanhã.